O QUE É A IGREJA ORTODOXA?

 O Papa Francisco se encontrou nesta sexta-feira (12 de fevereiro) com o Patriarca Ortodoxo de Moscou e da Rússia Cirilo (ou Kirill). Foi um encontro do líder espiritual da Igreja Católica e de um dos líderes orientais. Os ortodoxos formaram com os católicos durante quase 11 séculos uma só Igreja. Vamos aprofundar.

 

CONTEXTO HISTÓRICO

Para melhor compreendermos a existência da chamada “Igreja Ortodoxa”, devemos primeiro entender o contexto histórico dos primeiros séculos do cristianismo.

Um primeiro dado a se expor é a atividade missionária da Igreja que chegou ainda nos primeiros séculos a remotas regiões do planeta, por exemplo fontes relatam a ida de São Tomé até a Índia. Logo tivemos o surgimento de várias comunidades cristãs na Ásia, África e Europa.

Outro dado relevante, de natureza política da época, foi a transferência da capital do Império Romano no ano de 330 d.c pelo Imperador Constantino de Roma para Constantinopla (também chamada Bizâncio e atual Istambul na Turquia) e a divisão do Império em Império Romano do Ocidente com sede em Roma e Império Romano do Oriente. Tal divisão se deu devido à crise instalada pelas invasões de povos estrangeiro (bárbaros) que atacavam o lado europeu do Império que veio a ruir no ano de 476 dc quando o último imperador romano (Rômulo Augusto) foi destituído pelo rei bárbaro Odoacro. Os imperadores que governavam em Constantinopla (chamados imperadores bizantinos) passaram a ter desprezo pelo império ocidental, de modo a se desenvolver uma mentalidade própria chamada “bizantinismo”. Os imperadores buscavam se intrometer em questões religiosas e de disciplina, mantendo a Igreja Oriental sob seu controle.

Um terceiro dado de suma relevância foram as diferenças culturais entre ocidentais e orientais. Do lado do Ocidente (Europa) tínhamos a predominância da língua latina, gosto pelo direito e de uma liturgia romana. Do lado oriental(Eurásia), falava-se grego, tinha-se gosto pela filosofia e uma liturgia bizantina. Latinos e Gregos celebravam de modo diferente a Páscoa e jejuns. Havia entre Ocidentais e Orientais um certo desprezo mútuo motivado pelas diferenças mencionadas e outras tantas.

O quarto dado foi o surgimento do Sacro-Império Romano da Nação dos Francos. No ano 800, o Papa Leão III coroou imperador Carlos Magno de origem bárbara (iniciava-se a dinastia Carolíngia). Surgia a partir de então no ocidente um Império Cristão governado por um bárbaro convertido sob as bênçãos do papa. Em seguida, no ano 962, surgiu igualmente um novo império cristão liderado por reis bárbaros (dinastias dos Otos): o Sacro Império Romano da Nação Germânica. Tais fatos geraram entre os orientais muita indignação.

Por fim, o quinto dado diz respeito à separação que ocorreu entre a Igreja Ocidental e a Igreja Oriental, de modo que esta se desenvolveria fora da subordinação espiritual e hierárquica ao Papa. Tal episódio ficou conhecido como “CISMA DO ORIENTE” que será explicado à frente.

ORIGEM E DESENVOLVIMENTO

Quando da divisão do império, O lado oriental se desenvolveu com relativa independência da metade ocidental onde o Papa se encontrava. O clero oriental gozou de bastante prestígio diante dos imperadores bizantinos, porém estes sempre se intrometiam em assuntos eclesiásticos (Na verdade, o imperador bizantino exercia um certo dirigismo sobre a Igreja Ortodoxa, o que se chamava "cesaropapismo"). Quando começaram a surgir as grandes heresias trinitárias, os primeiros concílios ecumênicos se realizaram em cidades situadas no Oriente (Niceia, Constantinopla, Éfeso) devido a relativa paz existente naquela região. Por isso são chamados ortodoxos, pois se posicionaram contra as primeiras heresias.

Com a transferência da corte imperial no ano 330, os patriarcas de Constantinopla passaram a ganhar notoriedade e a se imporem sobre as demais sedes episcopais do Oriente, e ainda querendo rivalizar com o bispo de Roma (Papa). A Igreja Ortodoxa compreenderia o conjunto de igrejas particulares orientais que não estão na comunhão papal.

Por estarem perfeitamente encaixados na sucessão apostólica, os bispos Ortodoxos transmitem o sacramento da Ordem validamente, logo, os sacramentos administrados pelo clero ortodoxo são igualmente válidos. Para celebrar a Eucaristia usavam pães fermentados (Obs.: a Igreja Católica utiliza pães ázimos semelhante Jesus usou na última ceia). Quanto à disciplina do clero, os bispos são celibatários, porém se admite que demais clérigos possam ser casados. A liturgia da Missa segue o ritos orientais, sendo o rito bizantino o que mais destaca. Adotam as imagens dos santos em seus templos e em seu culto litúrgico semelhante aos católicos. Não devemos confundir com as igrejas católicas orientais que estão em plena comunhão com o Papa, tais como a Igreja Maronita, Igreja Copta, Igreja Católica Siríaca, Igreja Católica Armênia, Igreja Greco-católica Ucraniana entre outras.

                                  

                                                                Iconografia bizantina

O CISMA

A separação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa se deu no ano de 1054 e entrou para a história como o “CISMA DO ORIENTE”. Existia já de muitos séculos, conforme mencionamos acima, uma certa rivalidade entre orientais e ocidentais. No ano de 1014, o Papa Bento VIII introduziu o Filioque ao canto da Igreja Latina (O Filioque era uma formulação de fé que professava ser o Espírito Santo procedente do Pai e do Filho. Os orientais criam apenas na procedência vinda do Pai), o que causou intenso repúdio do patriarca bizantino Sérgio II e depois de seu sucessor Miguel Cerulário. Em 1053, este último mandou fechar as igreja latinas existentes em Constantinopla e confiscou mosteiros. No ano 1054, o Papa Leão IX enviou a Constantinopla três representantes em visita ao imperador Constantino IX. No entanto, o então patriarca Miguel Cerulário proibiu os representantes papais de celebrarem Missa na cidade. Em reação, os legados romanos excomungaram o patriarca e seus seguidores. Este reuniu um concílio e pronunciou a excomunhão contra o Papa, pedindo ainda que os demais bispos orientais também se desligassem da autoridade de Roma. Eis a origem da separação formal entre católicos e ortodoxos, que na prática já caminhavam separados há algum tempo devido às diferenças políticas e culturais entre Oriente e Ocidente.

RELAÇÃO ATUAL COM A IGREJA CATÓLICA

Em 1965, na cidade de Jerusalém, os Papa Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla Atenágoras I elaboraram uma declaração de União Católico-Ortodoxa de modo que as excomunhões recíprocas do passado foram anuladas. O cisma continua, mas as Igrejas, desde então encontram-se em intenso diálogo.

Papa Paulo VI e Patriarca Atenágoras I

 

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